Thursday, August 14 2008 :: 07:21

“Vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo. E quando vejo o mar, existe algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem. Já que você não está aqui, o que posso fazer é cuidar de mim.”
(Renato Russo, vocalista do Legião Urbana, em trecho da música Vento No Litoral)

É isso. Ele se foi. O herói, o vilão, o modelo, o homem. João Bosco Carvalho Monteiro, meu pai, nascido em 31 de janeiro de 1955 foi a óbito essa quarta-feira, 13 de agosto de 2008 em decorrência de Acidente Vascular Cerebral. Ele, que ia me levar pra balada, pro puteiro, ia me ensinar a dirigir, ia brincar com meus filhos… Ele que fez cada merda recentemente que me deu um mesclo de raiva, medo, vergonha e confusão que resultou na minha separação gradual em questão de presença física e talvez até espiritual na vida dele… Mas, acima de tudo, ELE, que me acolheu e criou como se fosse seu filho de linhagem sangüínea, sem a mínima diferença, sem o mínimo de desprezo ou raiva ou qualquer outro sentimento ruim que muito homem poderia sentir ao ver sua esposa simplesmente chegar com uma criança já com a ideia de adotá-la, sem nem ao menos feito uma consulta, apenas na intenção de ter o “ok” do marido surpreso para poder tê-la em casa. Ele morreu. Ele se foi e não volta. E eu sei que breve estarei lá, junto. Não tão breve assim, espero. Mas breve, sim.

Esse post será dedicado a mim, a ele, aos meus dias sem postar e aos meus sentimentos que se misturam e criam um tornado dentro do meu ser. E começarei com um resumo da minha visão da história. Toda.

Primeiro, verdades e mentiras.

Uma verdade: Eu simplesmente odeio que zoem os estados no norte. Então lá vai:

Desculpa, mas NÃO nasci no Acre. Eu viajei pra lá duas vezes, no mais.

Assim como nunca morei em Rondônia. Embora tenha ido uma vez e nem lembre tanto da viagem.

Máscara desfeita, vamos à história:

No interior do Pará, em uma cidade chamada Santarém, uma jovem de 12 anos chamada Cilene resolveu transar com um panacão, que eu não sei o nome, sem camisinha. Isso resultou numa gestação precoce e deu no nascimento de um bebê, de nome desconhecido, que possuía cabelos loiros e olhos azuis. Não bastasse essa vez, ela tornou a transar sem camisinha e, aos 15, deu a luz a um segundo filho, que nasceu de olhos azuis e cabelos castanhos, ao qual chamou de Leno(Deve ter sido isso. Uma variação qualquer entre Leno e Lennon). Sua segunda gestação, porém, acarretou em um câncer no colo do útero, devido a ser MUITO precoce. Vindo a Manaus, ainda grávida, para dar a luz e se tratar, acreditou que fosse morrer. Com isso, o pai das crianças se distanciou e, acreditando que fosse morrer, Cilene entregou seus filhos a uma assistente social, encubida de achar os pais adequados para criar seus filhotes. A assistente social, porém, freqüentava um salão pequeno, caseiro, cuja cabeleireira era casada há 4 anos e tinha planos de ter um filho, embora tivesse problemas de engravidar com o parceiro. Nisso, falou à cabeleireira, de nome Elzanira(Popularmente, Nira), que viu as crianças e, podendo apenas criar uma, acabou por ficar com o mais novo. Ao levar para casa, apresentou a criança ao marido, João Bosco(Popularmente, Bosco), já com a ideia de adoção. Bosco, cuja irmã era advogada, aceitou a ideia e, chamando sua irmã, conseguiu uma jogada para que o garoto fosse registrado em cartório como filho co-sangüíneo do casal. E assim, em Janeiro de 1992, estava “oficialmente” nascido Emerson Leandro de Sousa Monteiro(Eu mesmo), de dois meses, biologicamente nascido e registrado oficialmente pela data de 01 de novembro de 1991.

Bosco e Nira criaram bem seu filho, que crescia saudável. Aos 3 anos, porém, sozinho, o menino teve a brilhante ideia de ter um irmãozinho. Não vendo jeito, Bosco e Nira começaram um tratamento hormonal lá para fins de 1994 e, em 8 de junho de 1995, nascia Erick Leonardo de Sousa Monteiro, filho mais novo do casal.

Emerson e Erick cresceram como dois irmãos devem crescer: Brigando unidos, entre si ou contra outros.(Risos)
Emerson, como de praxe dos primogênitos, se sentiu ameaçado pela atenção especial que Erick exigia, mas superou isso com o tempo.

Pulando embromações, chegamos a Junho de 2001. Nira e Bosco estavam se separando, o que abalou um pouco a mente de Emerson. Discussões e reviravoltas resultaram na reconciliação do casal.

Em 2005, porém, o casal separou-se denovo e dessa vez era definitivo.

Com medo, achando tudo estranho e confuso, Emerson aos poucos perdia a aproximação com o pai, de forma voluntária até, pois não queria ter que ouvir dos problemas entre os dois(O que veio a ser inevitável).

Em 2007 começava o divórcio sob os olhos da lei e em meio a discussões, duas ações impensadas resultaram no afastamento legal de um mínimo de 90 metros entre Bosco e a residência onde moravam Nira e seus filhos. E então acabou aí. Essa tragédia acabou por afastar ambos, Emerson e Erick(que costumavam visitar o pai sempre juntos, quando não Emerson só), de Bosco.

Vontade e saudades não faltavam, muito menos a permissão de Nira, para que os filhotes vejam o pai. O que simplesmente fodia os encontros entre pai e filhos era a entrada de Maria das Graças Carvalho Monteiro(Popularmente, Graça), irmã mais velha de Bosco, como advogada representante da parte dele no processo de divórcio, desde o início do mesmo.

Graça simplesmente alimentava ódio de todas as mulheres com quem Bosco ficava, sem poupar nenhuma, e seus interesses em foder a vida de Nira, agora futura ex-esposa de Bosco, eram grandes o bastante para fazê-la esquecer da existência de seus dois sobrinhos. E, com incrível capacidade de manipular o próprio irmão, fez todos os planos simples e pacíficos de Bosco serem substituídos por suas ideias estúpidas de discórdia entre as duas famílias. Como que por instinto natural, Emerson passou a apoiar a mãe nas escolhas dela, até porque sabia que seu pai não escolhia mais nada.

Em todos os processos, Bosco abaixava a cabeça e calava a boca enquanto Graça destilava sua raiva em argumentos embelezados, proferidos num vocabulário rebuscado que, por mais que fosse forçado ou absurdo, procurava por classe em suas palavras difíceis para leigos e extremamente claras sobre suas ambições. Coisa que todo advogado com interesse no processo faz.

E mesmo ao fim do divórcio, de forma pacífica e na única vez que se viu Bosco proferir palavras em seu próprio nome, Emerson e Erick não estavam tão animados em vê-lo. Eram junho de 2008.

Emerson não ia, ainda era confuso, não sabia mais o número, ficou abalado com a morte da avó paterna, em 12 de maio, a qual foi noticiado por intermédio de um promotor, e do que sua família poderia pensar do “neto ingrato” que ele mostrou ser, mesmo que não fosse ou não se sentisse um. Ainda estava abalado pela tragédia de um ano atrás, ainda estava puto, revoltado, triste, confuso. E nisso, passaram dois meses.

À chegada do dia dos pais, sem saber o que fazer, sem ideia, sem números para ligar, o dia passou em branco para Emerson, Erick e Bosco… Ou quase.

Duas versões dessa história foram contadas a Emerson, esse que vos escreve:

1 - Bosco acordou de manhã com muita dor de cabeça na casa em que residia com sua namorada, Lindalva. Ao perguntado se queria café-da-manhã, pediu um nescau e foi tomar banho. No banheiro, teve o fatal AVC e foi levado às pressas ao pronto socorro Hospital João Lúcio, Zona-Leste da cidade, onde ficou em coma na UTI até o momento de seu óbito.

2 - Bosco estava na casa de seu primo, Augusto, em uma festa no dia dos pais. Preocupava-se pela falta de ligação de seus filhotes, mas sua dor de cabeça forte desde o início do dia o levou ao banheiro, para tomar banho e tentar aliviar a dor. Foi quando a AVC o atacou e, novamente, João Lúcio, UTI.

Emerson não pôde constatar qual das versões é a real. Mas uma coisa estava certa:

Um mês antes de entrar em coma, Bosco falou a sua tia Francisca que, caso acontecesse-lhe algo, ela ficaria emcubida de avisar a sua ex-esposa e seus filhos.

Às 11h45min do dia 12 de agosto de 2008, Emerson e Erick foram alertados do estado grave de seu pai na UTI. Em cima da hora e com medo da recepção ácida da família, decidiram prorrogar a visita para o dia seguinte.

Às 10h45min do dia 13 de agosto de 2008, os irmãos acordavam para um novo dia quando foram noticiados por Nira que seu pai falecera aquele mesmo dia, às exatas 9h45min. Novamente, prorrograram. Não queriam recepção ácida por serem “filhos ingratos” e deixariam para ir ao velório do pai à noite, quando a poeira baixasse. Às 15h05min daquele mesmo dia, porém, no trabalho, Emerson fora notificado que seu pai estava já em decomposição e que o enterro seria feito às pressas no cemitério São João Batista, no Jazigo da família e que, devido à hora, já estava sendo feito. Saindo às pressas do trabalho, foi até o cemitério e teve a ácida recepção de sua tia Graça e madrinha Samara.

- Olha o que vocês fizeram! - exclamava Graça - Olha só! Vocês aband… - todo o resto não era ouvido. Todos tentavam acalmá-la.
- Sua mãe vai morrer seca, Léo¹! - falava Samara - Vai morrer seca!

E todos tentavam acalmar as duas histéricas que, sem razão, culpavam inocentes por algo que não lhes tinha envolvimento. Graça continuava falando, mesmo com a súbita e inesperada intervenção da primogênita, Maria do Perpétuo Socorro Carvalho Monteiro(Popularmente, Perpétua):

- Cala a boca, Graça! - exclamou Perpétua, com voz um tanto baixa, tremida, justificada pelo luto.

E largando a narração, eu realmente fiquei PUTO com as maldições proferidas pela Samara e a Graça. Fui lá para orar, ver meu pai, pedir perdão, honrar seu nome, prestar homenagem. E não para bater um papo cabeça com minha família de loucos. Muitos pensaram que não o visitava impedido por minha mãe, mas por mais que explicasse, ninguém acreditava. PORRA! Sou um adolescente, tenho 16 anos, tô assistindo quieto a uma separação banhada a ódio destilado pela maldita advogada do meu pai e, mesmo depois do fim, ficam os rastros aqui dentro. Eu ia fazer algo… Mas não deu. Não deu tempo. Não agarrei minhas chances e deixei meu pai morrer abandonado por quem mais o amava… E quem ele mais amava nesse mundo. E sempre que lembro disso, um mesclo de revolta, tristeza, angústia, saudade, remorso e auto-lamentação bate aqui dentro de mim. Eu queria só ter dito pra ele, em pessoa, que o perdoava pelos erros e que queria que ele me perdoasse pelos meus. Agora ele sabe, mas da pior forma… Ao menos, para mim. Ele deve estar bem melhor do que eu agora e eu acredito que, lá de cima, ele olha pra mim e me deseja o melhor. E que está lendo tudo isso e talvez concorde, em partes, comigo.

Obs¹.: Meu segundo nome é Leandro, porém desde cedo sou apelidado de Léo. Quando meu irmão, cujo segundo nome é Leonardo, nasceu o apelido já estava “impregnado” em mim, por isso me chamam de Léo.

[…]

Termino em outra ocasião.

[…]
Te amo, pai.

Para sempre seu,
Emerson Leandro de Sousa Monteiro

In love memory to
João Bosco Carvalho Monteiro
(*31-01-1955 †13-08-2008: 53 anos)